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FEV/2006
Qualidade do ensino no Brasil
No Brasil nunca houve tantas pessoas estudando como hoje. Dados do Ministério da Educação mostram que o nível de analfabetismo caiu 17,2% para 11,6% em dez anos; 97% das crianças entre 7 e 14 anos estão na escola. Cerca de 80% dos
jovens de 15 a 17 anos de idade freqüentam o ensino médio, enquanto que no ensino superior as matrículas saltaram de 1,76 milhões, em 1995, para 4,1 milhões, em 2004, o que corresponde a 17,3% da população brasileira na faixa etária entre 18 e 24 anos.

Excelente, se não fosse um pequeno detalhe: a qualidade do ensino.

Para atender essa demanda, num tempo tão curto, tivemos que “produzir” a quantidade suficiente de professores para tal. Aqui ficam as perguntas: com qual qualificação? Com qual preparação? Com qual dedicação? Com qual capacitação? Com qual remuneração? etc. A matéria sobre esse assunto caberá num futuro artigo.

O Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), de 2003, revelou que 55% dos alunos da quarta série estão em estágio “critico” ou “muito crítico” de leitura e interpretação de textos. Dos estudantes matriculados na oitava série, 51% não apreenderam as operações básicas da matemática. No ensino médio dos formandos têm dificuldades para compreender textos e 69% saem da escola sem habilidades matemáticas esperadas. Uma avaliação internacional realizada pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) projeta o Brasil em último lugar, apresentando o maior índice de repetência.

Vamos tomar como exemplo o ensino de Administração, que lidera a quantidade de alunos matriculados - cerca de 600 mil, ou seja, quase 15% do universo dos alunos matriculados no ensino superior. Lamentavelmente, o boom desses cursos vem acarretando a perda da qualidade e, conseqüentemente, formando pessoas despreparadas que, mais cedo ou mais tarde, poderão causar um grave prejuízo para si mesmo e para a sociedade.

Para agravar ainda mais a situação, face à saturação do mercado da educação superior, concentrado em algumas regiões do País, algumas faculdades, preocupadas apenas em atrair alunos, estão pensando em oferecer cursos de bacharelando em Administração de apenas três anos, o que é muito preocupante.

Quando a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) foi sancionada, em 1996, e instituiu grandes inovações para a educação brasileira, destacaram-se a liberdade e a flexibilidade das faculdades para elaborarem o currículo do curso de acordo com suas peculiaridades e necessidades básicas em diretrizes curriculares. Para o curso de bacharelado em Administração, elas foram aprovadas pela Resolução nº 04/2005 do Conselho Nacional de Educação. Essa resolução dentre outros aspectos permite que as faculdades elaborem seus projetos pedagógicos à luz de conteúdos curriculares, e não mais por disciplinas específicas, possibilitando assim uma maior flexibilidade na construção da matriz curricular que atenda às necessidades e especificidades do perfil profissional do formando.

Tais inovações, porém, estão submetidas à obrigatoriedade do cumprimento de uma carga horária de conhecimentos que, se deficiente, acarretará prejuízos na seqüência da educação, a pós-graduação. Os estudantes não têm consciência de que, ao escolherem curso que visa a formar bacharéis por meio de uma reduzida carga horária de estudos, estão incorrendo em um grave erro na sua perspectiva profissional.

Com os dados estatísticos acima mencionados, podemos inferir que não só no curso de Administração, mas na grande maioria dos demais cursos superiores tal fragilidade de fato ocorre.

Com o baixo nível de qualidade do estudo fundamental, médio, profissionalizante e superior, como vamos discutir estrategicamente o nosso desenvolvimento para acompanhar os desafios que o mundo globalizado nos impõe? Como vamos recuperar a nossa auto-estima, para discutirmos os nossos problemas sociais, econômicos, de produtividade, de competitividade, em fim para nos tornar um País
mais equânime, próspero e desenvolvido?

Ótimo seria se, no Brasil, todos concluíssem o ensino superior com razoável capacidade crítica, raciocínio lógico, habilidades verbais bem desenvolvidas e com um mínimo de conhecimentos específicos na área de atuação.
 
Por Ivo Petroni
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